Num ano que se tem pautado pela crise
económica, que infelizmente também se traduz em cortes orçamentais a nível da
cultura, deixando esta por vezes de estar ao alcance do grande público, a Tuna
da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tentou contrariar a
tendência. Como? Apostando tudo e organizando a 12ª edição daquele que já é
conhecido como o maior festival de tunas universitárias da Universidade de
Lisboa – o S. Vicente.
Tudo começou com um sonho e um desejo – não começa
sempre?; depois veio o mote «O próximo ano é ano de S. Vicente!». A partir daí,
e durante mais de um ano, a VicenTuna dirigiu todos os seus esforços (e à custa
de alguma sanidade mental) para pôr de pé o seu festival.
Este ano, a VicenTuna não nos levou apenas
além-fronteiras. Levou-nos ao espaço sideral. Subordinado ao tema «O Espaço», a
VicenTuna apresentou no dia 17 de Novembro quatro tunas de renome no XII S.
Vicente – o Festival Intergaláctico de Tunas Universais e Universitárias. A
concurso estiveram as seguintes tunas: Magna Tuna Cartola, a Estudantina
Universitária de Lisboa, a Tuna Académica de Lisboa e a Tuna Académica do
ISCTE.
O tão esperado dia chegou - 17 de Novembro -,
no entanto, já na noite anterior começara a animação com a aguardada Launch
Party no átrio do C5. A pré-festa teve o objectivo de receber as tunas que
aceitaram este desafio e, claro, todos os nossos amigos da FCUL e mesmo de
outras tunas que resolveram mostrar o seu apoio no festival de tunas da
VicenTuna. Esta festa durou até meio da madrugada porque havia que poupar
gargantas e fígados para a noite seguinte.
Para a tuna da casa, o dia de sábado começou
cedo (às 8h30). Um grupo de resistentes - a chamada produção de palco
magistralmente dirigida pelo Tuno Chita - chegou à FCUL sempre debaixo de chuva
mas nem por isso desanimada. Organizar, etiquetar, juntar, não desarrumar («Ai
de quem me tirar isto do sítio! Eu não respondo por mim!»), transportar para a
carrinha, levar para a Aula Magna, descarregar: estas eram as palavras de
ordem. E depois, claro, repetir tudo cinco ou seis vezes. Entre a montagem dos
cenários, alterações de última hora e uns muito atarefados soundchecks, chegou
finalmente a hora do jantar. Jantando por turnos para garantir que tudo corria
sobre rodas, que o foguetão estava bem preso e não corria o risco de cair em
cima de ninguém, que o módulo lunar não se desintegrava ou ainda que o planeta
lá longe não se virava de costas para o público, chegou o show time.

Sketches com um humor do outro mundo
intercalaram grandes actuações de cada uma das tunas a concurso. A ideia foi
responder a questões que têm assolado as grandes mentes desde a fundação da
Humanidade: será que há tunas noutros planetas? Conseguirá a música da
VicenTuna propagar-se através do vazio? E os instrumentos musicais? Como serão
os instrumentos em Marte? Será que o fim do mundo nos abrirá portas para
«tunarmos» outros planetas? Tendo habituado o público à megalomania e à
excentricidade de cenários, pôr um foguetão a descolar da Aula Magna não foi
impossível para esta produção de palco. Entre efeitos visuais e sonoros, uma
banda vinda de outro planeta, super-heróis, sandes de coiratos e ainda bonitas
matrafonas, a VicenTuna pôs em palco um módulo lunar que albergou uma equipa de
astronautas de elite que levaram a bom porto a missão Discóberi.

No fim de todas as actuações, coube à tuna da
casa finalmente subir a palco e mostrar a uma muito bem composta Aula Magna que
está cá para as curvas e que a vontade de inovar e o espírito académico nunca
nos deixarão. Pode dizer-se que um dos momentos mais emotivos da noite se deu
quando a meio da Leitaria Garrett, se juntaram a nós em palco pandeiretas de
muitas outras tunas para prestar nos homenagem e demonstrar que o que une todas
as tunas é o espírito de cooperação e amizade. Tivemos assim 17 pandeiretas a
saltar ao ritmo da nossa bridge, o que criou um efeito visual
espectacular e surpreendeu toda a gente.

Esta actuação foi, no entanto, extra-especial
para o bicho Rebolation que passou a caloiro neste dia tão importante,
demonstrando que mesmo em alturas de mais trabalho e pressão os tunos não
dormem e compensam sempre o esforço dos caloiros. Fica um breve testemunho do
nosso mais recente caloiro sobre este dia tão especial: «Após uma intensa
semana de trabalho, após muito frio na banca dos bilhetes, finalmente chegou o
dia. Foi simplesmente fantástico pois a Aula Magna estava cheia, e havia muitas
caras conhecidas no público. Posso dizer que subi a palco antes de ser caloiro
uma vez que participei nos divertidos sketch's, tanto fazendo-me passar por
matrafona como por super-herói. Actuação após actuação , sketch após sketch, a
hora foi-se aproximando e apenas no fim do aquecimento (há que manter o suspense
até ao fim!) é que a nossa ensaiadora Lola, com algum humor negro -
literalmente-, comunicou aquilo que já estava decidido há mais tempo: eu era
finalmente caloiro! Fiquei eufórico e com um friozinho na barriga. Foi muito
bom receber os parabéns de todos os tunos, até os mais antigos de quem eu
apenas tinha ouvido falar e, claro, dos meus colegas caloiros e bichos
também. De seguida, a actuação. Eu estava um pouco rouco e esforcei-me
bastante para não desafinar; não queria deixar a tuna ficar mal logo na minha
primeira subida a palco e muito menos no S. Vicente! Foi um momento único, ter
feito a primeira actuação num S. Vicente, perante tantas pessoas e estar
finalmente em palco com a VicenTuna! Um momento que não irei esquecer. A
verdade é que após muito treino, muitas horas de pé a montar e carregar coisas,
a actuação tornou aquele dia perfeito! Foi a cereja no topo do bolo. Fez-me
esquecer todos os stresses, as dores nos pés de estar 24h de pé, as horas mal
dormidas, TUDO!»
Tal como diz o Rebolation, o S. Vicente é
possivelmente a melhor oportunidade para os mais novos conhecerem a
velha-guarda da tuna, uma vez que os tunos que não estão presentes durante o
resto do ano não deixam de aparecer e subir a palco com os que cá estão o resto
do ano!

A actuação terminou, como não podia deixar de
ser, com a explosiva Xácara das Bruxas Dançando, cujo esquema de bombos e
estandartes não deixa ninguém indiferente. No entanto, e como manda a tradição,
se o público pede mais, a tuna dá mais. Com uma Aula Magna em pé a pedir a
Madalena, como dizer que não? E assim foi, tocámos a Madalena com toda a
pujança acompanhados pelo maravilhoso público. No fim, uma ovação em pé
bastante longa deixou-nos sem palavras e com a lágrima ao canto do olho. Foi
muito, muito, muito gratificante ver que o público gostou, se divertiu e
percebeu o investimento pessoal, profissional e académico que a VicenTuna pôs
neste festival. Todo o cansaço, todas as noites não dormidas, todas as dores de
cabeça, todas as quezílias foram esquecidas e, naquele momento, os aplausos
eram para cada um de nós. A missão estava cumprida.
De seguida, chamou-se o júri que distribuiu os
prémios da seguinte forma:
Melhor Pandeireta - Magna Tuna Cartola
Melhor Estandarte - Tuna Académica de Lisboa
Melhor Solista - Tuna Académica de Lisboa
Melhor Instrumental - Tuna Académica de Lisboa
Melhor Adaptação ao Tema (do festival) - Tuna
Académica do ISCTE
Tuna mais Tuna - Tuna Académica do ISCTE
Melhor Tuna - Magna Tuna Cartola
Dado o festival por encerrado, ainda havia
muito para fazer: desmontar cenários, limpar, arrumar, carregar materiais, dar
apoio na festa que entretanto começara no C5 e por aí adiante. A festa
obviamente continuou com o furor que caracteriza a VicenTuna e o átrio foi
apertado para tanta gente. O que se passa na festa do S. Vicente fica na festa
do S. Vicente, pelo que apenas podemos dizer que esta acabou eram 7h30. A
definição de uma boa noite, portanto.
Resta-nos apenas tecer algumas considerações
sobre o nosso festival, considerações que achamos serem importantes para dar a
conhecer melhor aquilo que nos move. O S. Vicente é mais do que um festival,
é uma tradição. Uma tradição que faz parte da Academia alfacinha, que pretende
continuar a superar-se, que depende e dependerá sempre de muito trabalho árduo,
de muitas noites não dormidas, muita vontade, muita cooperação, muita logística
e muitos voluntários que se dispõem a estar um fim-de-semana ao serviço da
VicenTuna. Apenas deste modo é possível montar um festival desta
envergadura. No entanto, é imperativo não esquecer a quem se dirige o S.
Vicente. O S. Vicente pretende, acima de tudo, mostrar ao grande público que as
tunas são uma forma de expressão musical legítima e esmagar preconceitos quanto
a esta «estranha forma de vida».

É por tudo isto, mas não só, que foi com
infindável (e indisfarçável) orgulho que a VicenTuna viu estes muitos meses de preparação
chegarem ao fim e pôs tudo a postos para proporcionar às cerca de oitocentas
pessoas que encheram a Aula Magna aquilo que é possível fazer quando a vontade,
o apreço à Tuna e o sentido de perseverança não abandonam nem deixam morrer o
espírito académico.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Magna Tuna Cartola, à TAISCTE, à Estudantina
Universitária de Lisboa e à Tuna Académica de Lisboa por terem sido nossos
cúmplices nesta noite inesquecível.
Aos elementos do Júri: ao Kruguer, membro da VicenTuna; ao Rui
Rodrigues, membro da banda Dazkarieh; à Daniela Varela, membro dos Flor de Lís;
ao Miguel Gonçalves, coordenador do Gabinete de Comunicação, Imagem e Cultura
da FCUL; e à Marta Santos, amiga de longa data da VicenTuna; por nos terem
feito o favor de aceitar a difícil missão de avaliar o contributo
extraordinário das 4 tunas que passaram pelo palco da Aula Magna.
O nosso muito obrigado à Associação dos Estudantes da Faculdade
de Ciências de Lisboa, por mais uma vez ter sido parceira da VicenTuna nesta
aventura.
Agradecemos também ao Instituto Português da Juventude, à
Fundação Calouste Gulbenkian, à Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa, à Reitoria da Universidade de Lisboa, aos Serviços de Acção Social da
UL, à Caixa Geral de Depósitos, ao grupo Alfredo de Jesus e à 3mm por
acreditarem no projecto e terem contribuído para que o S.Vicente fosse uma
realidade.
À Catarina, à Ora Viva (em particular ao Nuno e à Luísa) pelo
design do nosso logo e do material gráfico. Ao Canal Superior e ao EGEAC pelo
apoio na divulgação.
A todos aqueles cujo contributo empenhado e voluntário fez
possível esta noite, em particular ao David Ribeiro pela ajuda incansável na
construção dos nossos cenários. Ao Staff, guias, amigos, colegas, os serviços
da FCUL, da Universidade de Lisboa e muitos outros. A todos o nosso muito,
muito obrigado.
Por fim, queremos deixar o nosso obrigado
especial às nossas famílias e amigos que têm sido privados da nossa presença
nos últimos meses.